quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ateísmo e estudo da religião

Infelizmente sem tempo para traduzir, mas vai aqui para o caldeirão, eu mesmo lerei e darei sentido a tudo isso um dia...

Even atheists must recognise the importance of a sociological study of religion
An apparent lack of interest in how religion propagates in society is odd coming from people who so deplore its prevalence

Philip Ball guardian.co.uk, Friday 10 February 2012 19.22 GMT
Article history
The research reported last week showing that american Christians adjust their concept of Jesus to match their own sociopolitical persuasion will surprise nobody. Liberals regard Christ primarily as someone who promoted fellowship and caring, say psychologist Lee Ross of Stanford University in California and his colleagues, while conservatives see him as a firm moralist. In other words, he's like me, only more so.
Yes, it's pointing out the blindingly obvious. Yet the work offers a timely reminder of how religious thinking operates that has so far been resolutely resisted by most noisy atheists.
Many atheists prefer to regard religion as a virus that jumps from one hapless individual to another, or a misdirection of evolutionary instincts, curable only with a strong shot of reason. These epidemiological and Darwinian models have an elegant simplicity that contamination with broader social and cultural factors would spoil. Yet the result is akin to imagining that, to solve Africa's Aids crisis, there is no point in trying to understand African societies.
Thus arch-atheist Sam Harris swatted away my suggestion that we might approach religious belief as a social construct with the contemptuous comment that I was saying something "either trivially true or obscurantist". I find it equally peculiar that chemist Harry Kroto should insist that "I am not interested in why religion continues" while so devoutly wishing that it would not.
This apparent lack of interest in how religion actually manifests and propagates in society is odd coming from people who so deplore its prevalence. But I think it may not be so hard to explain.
For one thing, regarding religion as a social phenomenon would force us to see it as something real, like governments or book groups, and not just a self-propagating delusion. It is so much safer and easier to ridicule a literal belief in miracles, virgin births and other supernatural agencies than to consider religion as (among other things) one of the ways that societies have long chosen to organise their structures of authority and status, for better or worse.
It also means that one might feel compelled to abandon the heroic goal of dislodging God from his status as creator in favour of asking such questions as whether particular socioeconomic conditions tend to promote intolerant fundamentalism over liberal pluralism. It turns a Manichean conflict between truth and ignorance into a mundane question of why some people are kind or beastly towards others.
Yet to suggest that we can relax about some forms of religious belief – that they need offer no obstacle to an acceptance of scientific inquiry and discovery, and will not demand the stoning of infidels – is already, for some new atheists, to have conceded defeat.
The worst of this is that to reject an anthropological approach to religion is, in the end, unscientific. To decide to be uninterested in questions of how and why societies have religion, of why it has the many complexions that it does and how these compete, is a matter of personal taste. But to insist that these are pointless questions is to deny that this important aspect of human behaviour warrants scientific study.
The Stanford research reinforces the fact that a single holy book can provide the basis both for a permissive, inquiring and pro-scientific outlook (think tea and biscuits with Richard Coles) or for apocalyptic, bigoted ignorance (think Tea Party with Sarah Palin). Might we then, as good scientists, suspect that the real ills of religion originate not in the book itself, but elsewhere?

Religião e ciência

Sem dúvida este tema daria para escrever uma quantidade enorme de blogs, logs e vlogs. Só me pergunto se vão ensinar isso que coloquei abaixo nas escolas? Um tema para as aulas de religião e outro para as de ciências....



Aula de religião: Hipátia (370-415 DC), filha de Theron, era uma cientista, matemática, astrônoma, líder da escola de filosofia neo-platônica e diretora da Biblioteca de Alexandria. Cirilo, o arcebispo de Alexandria, a odiava por ela ser um símbolo da ciência e da cultura que, para a igreja primitiva, representavam o paganismo. Ela continuou seu trabalho apesar das ameaças até que, no ano de 415, foi cercada pelos monges e paroquianos (todos cristãos...) de Cirilo, despida e esfolada até a morte com cacos de cerâmica. Seus restos foram queimados, suas obras destruídas e Cirilo foi canonizado.

Aula de ciências: O gás CFC foi lançado comercialmente em 1927 como um grande bem para a humanidade. Apenas em 1974, mais de 40 anos depois, se descobriram os danos que causava à camada de ozônio e os riscos de câncer que provocava em massa à população da Terra. É a mesma ciência que continua lançando novos produtos e serviços, talvez com mecanismos de regulação maiores, mas com os mesmos interesses financeiros e, por vezes, com o mesmo grau de incerteza sobre as consequencias futuras do uso indiscriminado daqueles produtos e serviços.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O fascismo dos meninos do Rio

Gilson Caroni Filho

O que há em comum entre uma moradora de rua agredida a socos e pontapés no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, por três homens de classe média que a acusam de quebrar o retrovisor do carro e Vítor Suarez da Cunha, jovem estudante brutalmente espancado ao tentar proteger um morador de rua que apanhava de cinco delinquentes no bairro Jardim Guanabara, na Ilha do Governador? Ambos foram vítimas de um estrato social que tem como traço ideológico funesto a recusa da cidadania.
     Em menos de uma semana, a violência de um segmento incapaz de distinguir o público e o privado, que tem na venalidade uma de suas marcas, que trata a rua como prolongamento da casa e do quintal, desconhece direitos sociais e políticos, menospreza a condição humana dos que não pertencem a sua geografia social, reiterou, em pontos do estado do Rio de Janeiro, o caráter fascista que lhe é inerente.
     Para eles, a liberdade se reduz ao ato de escolher entre várias marcas do mesmo produto e a felicidade é o fim de semana em família esvaziando shopping centers, o consumo do Natal e o réveillon em uma boate “superluxo”. A protegê-los, vigias, olhos eletrônicos, cães de guarda, grupos de extermínio e a polícia violenta que conhecemos, protetora de “gente de bem”. Quando se lançam em busca das ilusões perdidas, dão início a uma busca feroz, mostrando uma força ideológica assustadora.
     Num tempo em que pessoas têm sua condição humana aviltada, morrendo como moscas, fatos como estes não podem, após algum tempo de exposição midiática, provocar, no máximo, bocejos. É preciso deixar de contentarmo-nos em sobreviver, de acreditar que “com a gente não acontece” ou, o que é pior, fazer da vítima o culpado. Recusar a indiferença, persistindo em chamar de acidente uma rotina de mortes e de mutilações, conhecida, anunciada e burocraticamente executada cotidianamente. Nas ruas do Leblon e do Jardim Guanabara, o que aconteceu foi um fato político. E como tal precisa ser combatido.
     Como classificar o comportamento dos fascistas de “boa aparência”? Perversão? É pouco. Isto é sordidez, abjeção, cegueira de valores. Mais ainda: é sintoma de uma cultura que faz da sarjeta sua medida moral e que, pouco a pouco, destrói um legado histórico, construído com sacrifício de homens, de povos e de nações. O que está em jogo é a consciência de que a vida é um bem, cuja posse não temos o direito de negar a quem quer que seja. O que estamos esperando? Que a lei da oferta e da procura regule o mercado de massacres e extermínios?
     A punição exemplar dos agressores, “gente de boa cepa”, é fundamental para que não continuemos a ser uma sociedade moralmente idiotizada. A barbárie não pode continuar satisfazendo o apetite de quem faz do riso cínico a única saída para a impotência e a covardia. Os fascistas têm de saber que já não contam com o “jeitinho brasileiro” de lidar com o direito à vida e à dignidade física e moral de cada um. Do contrário, a certeza da impunidade continuará ampliando a lista de vítimas. Em um país democrático, não se confunde desejo de justiça com direito de vingança.
     Vítor Suarez da Cunha (foto), o jovem de 21 anos, que teve 63 pinos implantados no rosto, deu uma magnífica lição de vida, de solidariedade humana. Muitos escreverão sobre sua atitude, mas nenhum texto será capaz de traduzir sua coragem, seu amor ao próximo, sua consciência de cidadania. Ao afirmar que “faria tudo de novo se preciso fosse”, torna-se um símbolo de que a luta política não só é possível como conta com bons combatentes.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sobre motins e guerras internas

O mais difícil diálogo entre paradigmas é o que se dá no interior de cada um. Aliás, vou fazer como aprendi e falar por mim. No meu interior. No interior dos outros não sei o que se passa, precisariam eles me dizer.
     Pois não morro de amores por militares. Já apanhei em passeatas, já vi cavalos de patas erguidas para pisotear gente, já senti o cheiro do gás e os olhos ardendo. Mas confesso que também sinto respeito e admiração. Pela disciplina, pela objetividade, pela impassividade. Tive parentes militares e uma notícia recente nos jornais reforça minha ideia do que podem ser os militares. As obras de transposição do Rio São Francisco realizadas pela engenharia do Exército estão quase 100 % prontas enquanto que todas as empresas privadas tiveram problemas. Muito quente e áspera a vida no deserto para os seres normais.
     Uma vez defendi para um grupo de amigos que a meu ver deveríamos ter apenas um exército que defendesse as fronteiras. Dizia eu que achava um absurdo termos quarteis dentro das cidades, pagando do nosso bolso aquele monte de gente sem fazer nada. Ou na melhor das hipóteses fazendo ginástica. O motim dos policiais militares na Bahia mostrou que estou errado e me fez rever vários pressupostos.
     Há muito tempo que as polícias militares perderam a honra. Sabendo que aqui vai uma generalização, ouso afirmar que são pessoas que passam em concursos públicos sem maiores exigências, sabem que vão ganhar pouco e que, logo que entram, passam a se dedicar a outras atividades. Na melhor das hipóteses segurança privada de ruas e pessoas. Na pior, milicianos impiedosos e cruéis.
     Na Bahia acontece um motim e não uma greve. Nossa constituição é clara. Aos militares é vedada a sindicalização e a greve. Não sabiam disso quando entraram? Não caía no concurso esta pergunta? Junta-se a isso o fato de que o tal do Marco Prisco, nem PM é, foi expulso da corporação em 2002 por ter liderado levante semelhante em 2001. Tentou ser deputado pelo PTC e hoje é filiado ao PSDB. Não acredita? Pesquise, deu hoje no Valor. 
     Durante o motim um bando de milicianos aproveitou para fazer o que sabem fazer melhor. Esquadrões da morte. Dizem que os assassinatos na Bahia aumentaram. Mas o grosso do aumento vem exatamente de crimes com características de extermínio. 
     Só fiquei ressabiado com uma coisa. A diferença entre as atitudes das autoridades quando invasores são estudantes como no caso da USP ou pobres como no caso do Pinheirinho. Não sei se eu queria violência no caso da Bahia. Mas certamente preferia nos dois outros casos ter visto longos dias de negociação e gente comemorando aniversário com os desocupadores.


     

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Imagine se Pinheirinho fosse um bairro de Havana


06/02/12

 Imagine se Pinheirinho fosse um bairro de Havana!

Imagine se Pinheirinho fosse um bairro de Havana! Seria enorme o estardalhaço que a grande mídia estaria fazendo, no mínimo clamando por direitos humanos. Mas, Pinheirinho é no emblemático ninho tucano, no estado de São Paulo, portanto... é assim mesmo, porrada no povo, é permitido.

Antonio Capistrano, via Vermelho

A hipocrisia da mídia brasileira com relação às questões dos direitos humanos é hilária, principalmente quando se refere a um país fora do bloco de controle das nações capitalistas, tanto da área de influência dos Estados Unidos como de qualquer país da Comunidade Europeia e, se esse país for Cuba, a canalhice vai ao extremo. O âncora do Jornal da Globo, William Waack, revira os olhos quando fala mal de Cuba; a Miriam Leitão, segundo Paulo Henrique Amorim, a urubóloga da rede Globo, chega a entortar a boca; e quando o comentário é do Arnaldo Jabor, a inteligência dá lugar a maledicência gratuita, cheia de hipocrisia.
    Para a grande mídia, nos Estados Unidos e na Comunidade Europeia, reprimir qualquer manifestação que conteste o sistema capitalista é permitido, a mídia (PIG) fecha os olhos ou noticia como um fato normal – dão a entender que são baderneiros querendo apenas tumultuar a “democracia”, portanto, nesses casos, a repressão é “legítima”, é benéfica para o sistema capitalista.
     Basta ver os casos do Iraque, Líbia, Palestina e o que está ocorrendo na Síria. A mídia, controlada pelos interesses do grande capital, tudo justifica na derrubada dos “tiranos”. São verdadeiros genocídios que estão ocorrendo. No caso do Iraque mais de 1 milhão de pessoas foram mortas, a justificativa é a de sempre, defesa das “liberdades democráticas”, dos “direitos humanos”. Na realidade era o petróleo iraquiano que interessava as corporações petroleiras norte-americanas. As armas químicas e biológicas do Saddam, nunca foram encontradas. Caso idêntico acontece na Líbia e Síria. O muro de Berlim, para essa mesma mídia, era imoral e cruel, mas ela não fala do muro que separa Israel da Palestina muito menos o que separa os EUA do México.
     Agora, o pior disso tudo, é o poder que a mídia tem. Ela cria o que ficou denominado de consenso midiático. Saddam tem armas químicas e biológicas, ele é um tirano e pronto, isso passa a ser uma verdade absoluta, mesmo não sendo.

     Logo após o anúncio da visita da presidenta Dilma Rousseff a Cuba, a rede Globo enviou uma equipe de reportagem a Ilha. Isso ocorreu no mês de novembro de 2011, a correspondente da Globo em Nova Iorque, Giuliana Morrone, fez uma série de “reportagens” sobre Cuba que foi ao ar na última semana do mês de dezembro, vale salientar, reportagens falaciosas. O motivo dessas reportagens era preparar um factoide, armar uma arapuca, na tentativa de constranger a presidenta Dilma em sua visita ao país de Fidel, a blogueira Yoani Sanchez era o modelo ideal para os objetivos da rede Globo.
     A presidenta, em entrevista concedida em Havana, foi taxativa e, sem rodeios, respondendo as provocações da mídia, que insistia em perguntar sobre “direitos humanos”, não titubeou, disse: “Vamos falar de direitos humanos? Então nós vamos começar a falar de direitos humanos no Brasil, nos Estados Unidos, uma coisa chamada Guantânamo. Não é possível fazer da política de direitos humanos só uma arma de combate ideológico. Direitos humanos não é uma pedra que você joga só de um lado para outro, todos nós temos os nossos telhados de vidro e cada país tem as suas peculiaridades”. Eu acrescendo, Cuba é um país em estado de guerra, é uma fortaleza sitiada, ameaçado de invasão por mercenários acantonados em Miami. Mercenários financiados pelo governo norte-americano. Em Cuba existem agentes infiltrados no meio da população com o objetivo de desacredita o governo, como é o caso da blogueira Yoani Sanchez, uma mercenária a serviço da CIA e dos grupos que realizam ações terroristas no território cubano
     A grande mídia não divulga e o governo norte-americano fecha os olhos sobre os atos terroristas praticados contra Cuba. Quem está preso nos Estados Unidos não são os terroristas financiados pelos grupos anticastristas, mas, sim, os cinco antiterroristas cubanos, patriotas que faziam um importante trabalho de combate ao terrorismo, evitando atentados, salvando vidas de cubanos e de turistas que visitavam a Ilha.
     Fiquei feliz com a visita de Dilma Rousseff a Cuba, com sua postura de estadista, com a visita que fez ao líder Fidel Castro, um ícone da luta libertária das Américas, merecedor de todas as honras do povo latino-americano. Fiquei feliz com os acordos assinados com o presidente Raul Castro, com o fortalecimento dos nossos laços de amizade. Cuba é um país irmão, símbolo de resistência ao domínio colonial e ao imperialista, exemplo, não só para nós, mas, para todos os países originários das ex-colônias.

Antonio Capistrano foi reitor da UERN e é filiado ao PCdoB.



Ótimo vídeo sobre o tema do Professor Boaventura de Souza Santos

http://www.youtube.com/watch?v=-juX_v8AQds&feature=related

Sobre dívidas, dúvidas e certezas

Maravilhosa matéria do Valor. Se você não puder ler tudo, deixo esta frase, a final do texto:
Margaret Atwood fecha o ciclo da dívida moral e financeira recuperando a ideia, presente nas mais antigas religiões, de uma dívida do ser humano para com a natureza. "Extraímos os recursos para toda a loucura financeira. Derramamos petróleo no oceano e destruímos os sistemas naturais. Toda essa dívida terá de ser paga."

ValOR ECONÔMICO
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As muitas caras da dívida


Por Diego Viana | De São Paulo
  O personagem Tom Rakewell escapa por pouco à prisão por falta de pagamento
A escritora canadense Margaret Atwood foi considerada visionária em 2008. A crise de Wall Street, disparada pelo escândalo dos "subprimes" e a quebra do banco Lehman Brothers, acabara de estourar quando ela lançou o livro "Payback: A Dívida e o Lado Sombrio da Riqueza" (publicado no Brasil pela Rocco em 2009). Com base em palestras para a rádio canadense, proferidas em 2007, a escritora expunha seu estranhamento diante de uma sociedade fundada sobre o endividamento irresponsável dos cartões de crédito e das hipotecas, que resultaria em desastre, primeiro nos EUA, depois na Europa.
Não contente em colocar o dedo nas feridas do século XXI, Margaret enveredou pelos múltiplos sentidos do conceito de dívida e crédito, de suas origens religiosas até o débito da humanidade com o planeta. "As pessoas me perguntavam como eu tinha previsto a chegada da crise. Mas eu faço a pergunta ao contrário: como era possível não ver? Os sinais estavam todos muito evidentes."
No mês passado, "Payback" estreou no Festival de Sundance. A diretora Jennifer Baichwal diz que o filme não segue o livro literalmente. "O que ele faz é tomar as ideias que estão ali e encontrar vozes humanas viscerais que as ilustrem. Como devemos? Para quem devemos? Como pagamos?" Ela colheu depoimentos ao redor do mundo. De Raj Patel, economista e ativista anglo-americano, até os envolvidos em sangrentas lutas de família na Albânia, passando por ecologistas e barões da mídia no Canadá, todos têm algo a dizer sobre débito e crédito.
O conceito de dívida é inquietante, mas também é visto como fundamental para a compreensão do desenvolvimento de vínculos sociais
Margaret Atwood está entre vários autores que se debruçaram sobre a questão da dívida desde que a crise financeira irrompeu nos EUA. Entre os tradicionais guias de finanças pessoais, estudos com jovens que contraíram empréstimos nos EUA e propostas para contornar o sufocamento financeiro na Europa, encontram-se textos que procuram invadir mais profundamente os conceitos de dívida e crédito.
São sociólogos, antropólogos, linguistas e filósofos, que investigam as origens de uma relação na qual uma pessoa se obriga a pagar algo a outra, no futuro, por um benefício de que vai fruir imediatamente. Um ponto sensível do problema da dívida, que envolve também seu correlato, o crédito, é a avaliação do papel do credor. Por um lado, as manifestações que tomaram ruas em Nova York, Londres e Madri no ano passado apontam os grandes agentes do mercado financeiro como responsáveis pelas dificuldades econômicas de grandes contingentes da população. Por outro, instituições financeiras juntam recursos e permitem sua alocação para fins produtivos. Esse nó talvez não possa ser deslindado.
A partir de uma leitura de "Fausto", tragédia em verso do alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da corretora Rio Bravo, afirma que o desenvolvimento econômico, fundado sobre as finanças, possui uma ambiguidade moral inextirpável. Franco escreveu o prefácio e o posfácio do livro "Dinheiro e Magia", do economista suíço Hans Christoph Binswanger. Binswanger parte do texto de Goethe para ler a economia moderna como sucessora da alquimia. (Leia entrevista na página 22).
  Tom Rakewell já está preso, e mesmo no cárcere seus companheiros tentam tomar seu dinheiro. As imagens pertencem a uma sequência pintada pelo inglês William Hogarth entre 1732 e 1733, apresentando o caminho de um irresponsável rumo à desgraça; em duas etapas, o pintor representa o perigo da dívida
"Há uma carga de ironia em 'Fausto', em que Goethe demoniza as finanças", diz Franco. "Quem orienta a emissão de títulos é Mefisto, mas é uma força criadora. Viabilizou progressos, que são colocados sempre de forma ambígua, para manter a ironia de que é o Demônio que produz aquele efeito. Ele rouba terras do mar, constrói canais, são coisas nunca inconfundivelmente boas, para reforçar a ambiguidade e ser mais instigante."
Margaret afirma ter se dado conta de que o grande tema da literatura inglesa no século XIX não era tanto o amor, como ela acreditava, mas a dívida. "A Feira das Vaidades" [W. M. Thackeray], "O Morro dos Ventos Uivantes" [Emily Brontë] e "Um Conto de Natal" [Charles Dickens] retratam personagens às voltas com hipotecas, títulos vencidos e credores à porta. A exceção é o texto de Dickens: a dívida, nesse caso, não é monetária, mas social. O ricaço Ebenezer Scrooge é confrontado com a miséria alheia, quando ele mesmo enriqueceu graças à generosidade de alguém. Mas há pesquisas que sugerem que essas duas formas da dívida têm um vínculo estreito.
O antropólogo americano David Graeber, da universidade britânica Goldsmiths, lançou escreveu o livro "Debt: the First 5000 Years" (Dívida: Os Primeiros Cinco Mil Anos), para traçar em 534 páginas a história do endividamento humano. Suas pesquisas, iniciadas em 2009, revelaram que uma proporção considerável das guerras, ao longo da história, teve como pano de fundo a cobrança de dívidas. No sentido inverso, "as revoltas da Antiguidade tinham todas mais ou menos o mesmo programa: cancelamento de dívidas e redistribuição de terras".
O termo "dívida", do Egito faraônico até o boom do crédito nos EUA, "sempre esteve envolto em uma atmosfera confusa", segundo o antropólogo. Em sânscrito, hebraico e aramaico, "dívida", "culpa" e "pecado" são denominados com uma só palavra. E assim como a palavra alemã para dívida é "schuld" (culpa), a origem da expressão "thank you" (obrigado) em inglês vem do verbo "think" (pensar), a partir da expressão "vou pensar no bem que você me fez". Em português, a expressão é ainda mais evidente: "'Obrigado' remete a uma dívida de obrigação". Em sociedades caçadoras, nas quais a cessão de objetos e favores não é o oposto de uma troca comercial, o agradecimento, diz Graeber, chega a ser uma ofensa.
  
O antropólogo cita o debate sobre o cancelamento de dívidas de países pobres e se surpreende com a noção de que débitos contraídos têm necessariamente de ser pagos. "Não é uma afirmação econômica, mas uma afirmação moral." Uma das principais funções dos empréstimos é que os emprestadores (bancos, por exemplo) apliquem recursos de seus clientes em atividades econômicas que, espera-se, darão lucro. "Mas se o emprestador tiver a garantia de que vai receber de volta, ele vai fazer empréstimos irresponsáveis", argumenta o antropólogo. Economicamente, o pagamento de um empréstimo depende do risco, que é calculado pelo próprio emprestador. Moralmente, trata-se de uma obrigação.
A linguista russa Natalya Davidko, do Instituto Touro de Moscou, busca nos textos bíblicos a demonstração de como o conceito de dívida tem implicações morais diversas. "Embora a dívida monetária não seja um pecado na Bíblia, é algo a ser evitado", ela escreve, "porque, quando tomamos dinheiro emprestado, alguém controla nossa vida". No Livro de Provérbios, lê-se que "o rico domina sobre os pobres e o que toma emprestado é servo do que empresta"; em Romanos, "a ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros".
Embora esteja cercado de aspectos inquietantes, o conceito de dívida também aparece, para vários autores, como fundamental para a compreensão do desenvolvimento de vínculos sociais. Graeber, por exemplo, explica como a ascensão do Estado centralizado, na Antiguidade, dependeu do endividamento da população. No Egito, os impostos cobrados pelo imperador constituíam dívidas fundadoras, que obrigavam as pessoas a um trabalho antecipado, para fazer frente às exigências imperiais. Na Mesopotâmia, ao contrário, o poder era descentralizado e a unificação tomou corpo com os empréstimos a juros entre grandes grupos sociais.
No século XIX, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche levou ao extremo a hipótese da dívida como origem de vínculos sociais no livro "Genealogia da Moral". Para ele, toda moralidade tem origem na cobrança de dívidas com ameaça de violência e a relação de obrigação do devedor é o vínculo social fundamental. A partir das teses de Nietzsche, o sociólogo italiano Maurizio Lazzarato publicou, em novembro, o ensaio "A Fábrica do Homem Endividado" (La Fabrique de l'Homme Endetté).
George Whiteside/Doubleday Publicity / George Whiteside/Doubleday PublicityO livro da escritora canadense Margaret Atwood sobre dívida foi transformado em filme, que estreou no Festival de Sundance
Para Lazzarato, a relação por trás do endividamento é uma relação política fundamental, não simplesmente um dispositivo econômico, mas uma "técnica de governo e de controle das subjetividades", que torna o tempo mais previsível e organiza comportamentos. "O paradigma do social não é dado pela troca, seja econômica ou simbólica, mas pelo crédito. Na base da relação social não está a igualdade da troca, mas a assimetria entre crédito e dívida, que precede a produção e o trabalho assalariado, tanto histórica quanto teoricamente".
O papel histórico das relações de dívida e crédito é explorado pelo economista Michael Hudson, da Universidade de Missouri. "A tendência de que as dívidas cresçam mais rápido do que a capacidade de pagamento da população parece ser uma constante na história", afirma. "A dívida polariza a riqueza e cria uma classe credora."
A partir do Renascimento, segundo Hudson, a classe credora (ou seja, os banqueiros) retirou seu apoio aos monarcas autocratas, cujas finanças estavam sujeitas às veleidades do tesouro real. O apoio passou às câmaras de representantes e às democracias. "Para que a dívida soberana recaia sobre a população como um todo, os eleitos é que deveriam instituir os impostos para pagá-la." Na análise de Hudson, a história da economia moderna começa nesse ponto.
O momento dessa passagem coincide com uma outra transformação histórica, visível em duas telas de mesmo nome. "O Banqueiro e Sua Mulher" é obra de dois autores flamengos. Em 1514, Quentin Massys pintou o casal como representante da avareza, com aspecto desagradável. Um quarto de século mais tarde, em 1539, Marinus van Reymerswaele pintou rigorosamente a mesma cena, mas como uma elegia dos comerciantes que faziam a glória de Flandres.
As pinturas refletem a mudança da mentalidade europeia em relação às finanças. Na Idade Média, o empréstimo a juros era banido pela religião, com base em versículos bíblicos, como Êxodo 22:25, que diz: "Se emprestares dinheiro ao meu povo, não te haverás com ele como credor; não lhe imporás juros". No final das Cruzadas, diz Hudson, a Europa foi inundada com ouro e prata trazidos do Oriente Médio e, mais tarde, da América, impulsionando o comércio e, por extensão, as finanças. A partir desse momento, os teólogos espanhóis da escola de Salamanca encontraram meios de valorizar os empréstimos e a cobrança de juros.
Reprodução / ReproduçãoNa versão de Marinus van Reymerswaele para "O Banqueiro e sua Mulher" (1539), a representação do financista é positiva
Livros como o de Margaret Atwood lançam luz sobre um mundo em que a soma das dívidas públicas bate em US$ 38,8 trilhões. Em vários países desenvolvidos, segundo dados da consultoria McKinsey, o conjunto daquilo que o governo, as empresas, os bancos e as famílias devem uns para os outros chega a cinco vezes o valor do produto interno bruto - os casos extremos são Japão e Reino Unido. Na periferia da Europa, depois de um período de convergência e estabilidade induzido pela criação da moeda única, os investidores exigem retornos expressivos em títulos públicos. No caso da Grécia, da Irlanda e de Portugal, retornos muito mais vantajosos do que antes da instauração do euro: até 35% para títulos de dez anos do Estado grego.
De 2008 para cá, o termo "dívida" entrou para o rol das preocupações mundiais, e não apenas no campo financeiro. Em julho, o aspecto político da crise de endividamento se tornou evidente quando o governo dos EUA teve dificuldade em aprovar no Congresso a elevação do teto da dívida do país. As dificuldades impostas à Casa Branca pelos adversários republicanos foram interpretadas como uma forma de chantagem.
No plano internacional, o sentido político da dívida se tornou visível com a constatação de que os EUA, outrora maiores credores do planeta, tinham se tornado os maiores devedores, com um balanço de pagamentos negativo em US$ 467,6 bilhões no final de 2011. Seu maior credor é a China, cujo balanço está positivo em US$ 360,5 bilhões. O dado é um pano de fundo para a declaração do presidente americano, Barack Obama, de que as relações bilaterais entre os dois países serão determinantes para definir o século XXI.
Em resposta às medidas de austeridade que visavam reconquistar a confiança dos investidores e reativar a capacidade grega de se financiar, protestos multiplicaram-se na Grécia, com frequência e intensidade crescentes. E o ponto comum às manifestações "Occupy" de 2011 foi a rejeição ao peso considerado excessivo do mercado financeiro na economia: em cartazes, os manifestantes exibiam o desconforto por estarem endividados demais.
Estudos como os de Graeber e Lazzarato parecem implicar que, sem dívidas, a atividade econômica não é possível. Essa leitura é reforçada pela estrutura dos mercados financeiros contemporâneos. Segundo o economista Anderson Caputo Silva, especialista principal em mercado de capitais do Banco Mundial e organizador do livro "Dívida Pública: a Experiência Brasileira", um país não consegue desenvolver seu sistema financeiro sem que primeiro o governo se disponha a contrair dívidas que forneçam liquidez aos bancos. "Sem o ponto de referência na dívida pública, fica impossível avaliar os portfólios dos investidores. Mesmo países que não precisam se financiar contraem dívidas, que ajudam a organizar o mercado de capitais.
O tema da dívida pública ilustra a articulação entre o campo financeiro e o político, estudados por Lazzarato, Graeber e outros. O Brasil obteve sua independência sob o signo de duas dívidas. Por um lado, ao partir de volta para Portugal, d. João VI levou consigo os ativos do Banco do Brasil, que ele mesmo fundara em 1808. Depois do 7 de setembro, o reconhecimento do novo país por sua antiga metrópole foi obtido através de uma pesada promessa de pagamento.
"Todos os processos de independência contam com algum acordo financeiro, a não ser quando há guerra, e mesmo a guerra termina com um acordo", diz Gustavo Franco. O caso do Haiti é exemplar: mesmo depois de suas tropas derrotarem os franceses, o país foi obrigado a assumir uma dívida impagável - como um preço pela liberdade.
Para Margaret Atwood, o sentimento de dever alguma coisa e ter obrigações é mais antigo do que parece. "As primeiras religiões estão repletas de referências a uma dívida com o cosmo, com a terra, com a natureza", ela argumenta. "Não nos damos à luz nós mesmos. Não nos alimentamos sozinhos quando somos crianças pequenas. Como seres sociais, estamos sempre trocando coisas: um 'por favor' aqui, um 'obrigado' ali, ou, ao contrário, um assassinato aqui, uma vingança ali."
O desequilíbrio que leva à dívida, para a escritora, é o mesmo desequilíbrio que permite ao universo funcionar. "Física e quimicamente, o desequilíbrio está no âmago do universo. Ele cria a complexidade. Um universo perfeitamente equilibrado seria inerte. Graças ao desequilíbrio, podemos respirar, por exemplo." A dívida, nessa perspectiva, é uma maneira de transformar o desequilíbrio originário da sociedade em produtividade e crescimento. "É como a dívida dos artistas para com seus inspiradores: eles a pagam com novas criações artísticas." Mas a criatura pode se voltar contra o criador, numa inversão de expectativas muito comum na literatura - como o aprendiz de feiticeiro, o Golem, a estátua que ganha vida e pode esmagar seu criador.
No tempo de seus pais, ela conta, dívida era um assunto quase tabu. Contrair empréstimos era visto como "uma oportunidade muito perigosa, a ser abordada com parcimônia". Com a invenção dos cartões de crédito, o endividamento se expande. "Pesquisando para o livro, aprendi muito sobre a neurologia da dívida. Gastar acima das posses com o cartão de crédito não é registrado como uma perda de dinheiro, só como a aquisição de um bem maravilhoso. É só quando as pessoas não conseguem pagar seus impostos e hipotecas que os números virtuais têm um impacto realmente físico."
Artigo publicado na revista "Social Science Research" explora a psicologia da dívida entre jovens americanos. De autoria dos sociólogos Rachel Dwyer, Randy Hodson e Laura McCloud, a pesquisa "Youth Debt, Mastery, and Self-Esteem" ("Dívida de Jovens, Controle e Auto-Estima") demonstra como a dívida passou de perigo a necessidade. "Neste início de século, os jovens adultos crescem numa era de acesso sem precedentes ao crédito, mas crescimento vagaroso de ganhos. O resultado é uma alta dramática do endividamento", diz Rachel.
Como resultado, o momento em que um americano entre 18 e 24 anos contrai sua primeira dívida, seja para consumir com o cartão de crédito, seja com um empréstimo estudantil, se tornou uma espécie de rito de passagem. "Ambos os tipos de dívida aumentam a autoestima e a sensação de controle dos jovens", diz a socióloga. "Para os jovens, a experiência da dívida é um investimento no futuro." Essa sensação é mais forte entre os jovens de origem humilde, que se veem, enfim, capazes de aceder plenamente à sociedade de consumo. Tanto para os ricos quanto para os pobres, porém, a satisfação proporcionada pelas dívidas começa a desvanecer a partir dos 24 anos: é o momento em que passam a ter de pagá-las.
Margaret Atwood fecha o ciclo da dívida moral e financeira recuperando a ideia, presente nas mais antigas religiões, de uma dívida do ser humano para com a natureza. "Extraímos os recursos para toda a loucura financeira. Derramamos petróleo no oceano e destruímos os sistemas naturais. Toda essa dívida terá de ser paga."

A ordem judicial e a desordem social

A cena final do filme O Grande Desafio, no original The Great Debaters, é ótima. Infelizmente vou ter que contar aqui o fim do filme para introduzir minhas ideias, mas isto é o de menos. Este é um daqueles filmes em que o durante é o importante. Bem como os protagonistas, Denzel Washington e Forrest Whitaker, sem desmerecer os atores mais jovens presentes na película.

     Debates entre equipes é um conhecido 'esporte' acadêmico americano. No caso, a equipe dos heróis do filme é de uma universidade em que estudam apenas jovens negros. Nos Estados Unidos de 1935, apenas 77 anos atrás. prevalecia a segregação nos estudos. Aqui no Brasil também podemos falar que havia uma segregação social, mas diferente da americana. Apenas para citar um exemplo, os obstáculos impostos pela raça no Brasil não impediram que Abdias do Nascimento se diplomasse em contabilidade em 1929 e se torna-se bacharel em ciências econômicas pela Universidade do Rio de Janeiro em 1938. Apenas para complementar sua biografia, foi fundador do Teatro Experimental do Negro em 1944, em maio do ano seguinte participou da fundação do Partido Trabalhista Brasileiro. Ativista do movimento negro – foi o organizador do primeiro Congresso do Negro Brasileiro, em 1950 –, concluiu o curso de sociologia no Instituto Superior de Estudos Brasileiros em 1956. Uma história que Denzel Washington também gostaria de contar. Como as de Alberto Guerreiro Ramos e outros intelectuais negros
     Mas vamos ao que interessa. Na cena final do filme um jovem negro, travando pela primeira vez um debate na prestigiosa Harvard, contra uma equipe branca, nos proporciona um final emocionante. O tema era a desobediência civil. O jovem branco fazia a defesa da ordem social e na necessidade e impor esta ordem. O jovem negro, muito jovem por sinal, nos lembra que por tudo que ele passou na vida, poder-se-ia esperar até que sua resposta fosse a violência. Que os brancos têm que se considerar felizes se ele for desobediente.
     Semana passada, antes de ir desfrutar a beleza do Rio de Janeiro por dois breves dias, assisti o governador do Estado de São Paulo se manifestar mais uma vez sobre o Pinheirinho. Defendia ele a importância de se seguirem ordens judiciais, para podermos manter a segurança institucional. Defendo eu o contrário, já que não houve debate. Como sabemos bem quem são alguns juízes brasileiros, há que ocupar, há que resistir, há que solapar.
     Vale à pena ouvir a opinião do Boechat:
http://flitparalisante.wordpress.com/2012/01/26/ricardo-boechat-e-a-favela-pinheirinho-geraldo-alckmin-e-cinico-e-imoral-so-entra-em-igreja-para-pedir-voto/
    Deixo aqui também para reflexão entrevista da nossa nova heroína negra ou se não negra quase negra, Eliana Calmon, sobre alguns (quase metade) dos juízes de São Paulo:


Corregedora acusa juízes de SP de esconderem renda
Segundo Eliana Calmon, em São Paulo, 45% dos magistrados descumpriram a legislação que os obriga a apresentar a declaração de renda

No mais recente capítulo do entrave que expôs a divisão e o clima de guerra do Judiciário brasileiro, a corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, afirmou ontem que quase metade dos magistrados paulistas esconde seus rendimentos e que por trás da crise está um movimento corporativista para enfraquecer o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em resposta às associações de magistrados, ela disse que essas entidades são "maledicentes e mentirosas". "Este é o ovo da serpente", disse.

Segundo ela, em São Paulo foi descoberto que 45% dos magistrados descumpriram a legislação que obriga os servidores públicos a apresentarem todos os anos sua declaração de renda para que eventualmente ela seja analisada por órgãos de controle, como o CNJ. Em Mato Grosso do Sul, ninguém entregou.

Eliana Calmon repudiou informações divulgadas pelas entidades dos magistrados de que cerca de 270.000 pessoas estariam sob investigação do CNJ. De acordo com a corregedora, foram identificadas "bem menos" do que 500 transações atípicas realizadas por integrantes do Judiciário, sendo que 150 delas foram detectadas em São Paulo. "Como é que eu estou devassando 270 mil pessoas? Não há mínima possibilidade disso acontecer", afirmou.

Ainda de acordo com a ministra, o presidente do Supremo Tribunal Federa (STF), Cezar Peluso, e o ministro Ricardo Lewandowski, não são investigados pela corregedoria do CNJ. No passado eles integraram o Tribunal de Justiça de São Paulo e durante esta semana chegou a ser divulgado que eles teriam recebido até 700 000 reais relativos a auxílio moradia não pago na época. "A folha de pagamento examinada é a de 2009 e de 2010. Só", enfatizou. "Os ministros do STF já não faziam mais parte do Tribunal de São Paulo nessa época". Além disso, a corregedora observou que pela Constituição Federal o CNJ não pode investigar ministros do Supremo.

Sigilos-Em nota divulgada anteontem, Peluso sugeriu que magistrados tiveram seus sigilos quebrados. A ministra negou. "Não houve quebra de sigilo fiscal ou bancário e muito menos devassa e vazamento de informações sigilosas", garantiu a corregedora. Segundo ela, as inspeções são realizadas há quatro anos e apenas agora, quando a vistoria foi feita em São Paulo, a Associação dos Magistrados Brasileiros reclamou. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Amapá já passaram pelo processo.

"As investigações patrimoniais começaram na época do ministro Dipp (ex-corregedor) e o problema só surgiu quando chegou em São Paulo", afirmou. "Esse estardalhaço que estão fazendo de uma decisão eminentemente técnica e que os senhores poderão acessar e verificar é para tirar o foco do que está realmente em jogo, que é a sobrevivência com autonomia do CNJ. Isso é que o foco do corporativismo". A ministra ganhou visibilidade e contribuiu para organizar a reação quando disse que havia "bandidos de toga" na magistratura.

De acordo com a corregedora, nas inspeções os técnicos não analisam transações bancárias. Ela disse que são examinadas as folhas de pagamento e as declarações de Imposto de Renda. As apurações começam a partir de informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que informa a existência de transações atípicas (no caso de desembargadores, são consideradas as superiores a 250 000 reais por ano).

Eliana Calmon disse que não conversou com Peluso e Lewandowski sobre a polêmica. "A questão está judicializada. Eticamente não se deve questionar ou conversar como se fosse um clube de amigos, disse, ressaltando que o tribunal terá de examinar o mérito de uma ação movida pela AMB contra as investigações da corregedoria. As apurações foram suspensas na segunda-feira por uma liminar concedida por Lewandowski.

Reação - Para imobilizar e constranger Eliana, associações representativas de juízes uniram-se numa estratégia de fazê-la "provar do próprio veneno", como afirmaram nos bastidores. As entidades decidiram pedir que o próprio CNJ abra um procedimento para investigar a corregedora por suspeita de envolvimento em suposta quebra ilegal de sigilos de magistrados, servidores e parentes. A estratégia foi anunciada numa nota divulgada nesta quinta-feira, assinada pelos presidentes das Associações dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), dos Magistrados Brasileiros (AMB) e Nacional dos Magistrados Trabalhistas (Anamatra).

(Com Agência Estado)