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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Indignado ou refastelado?

Hoje à noite meu Flamengo joga na Bolívia, almocei bem, minha linda esposa está deitada no sofá... O Carnaval se aproxima, a Portela vai desfilar, estou terminando meu doutorado, tanta coisa parece na paz e bem encaminhada. De onde vem então esta vontade louca de largar tudo, pegar o ônibus para São José dos Campos, colocar um capacete de motociclista na cabeça e fazer um escudo de tonel de plástico e me unir aos desabrigados do Pinheirinho enquanto eles procuram novas áreas para ocupar?
     Na verdade, este é o grande choque paradigmático, o diálogo no meu interior que preciso reconciliar, desbastar e polir. Ou ao menos tornar polido, um diálogo que hoje é violento e conturbado. Ainda mora em mim, aos 55 anos o jovem que foi as passeatas contra a ditadura no Rio de Janeiro, que a família achou por bem mandar para fora estudar. O jovem que ao chegar na Alemanha se filiou à Juventude Socialista e leu Hanna Arendt muito antes de ler Marx.    
     Ainda mora no meu peito o jovem que largou os estudos de Economia para dançar e fazer teatro, que teve o prazer de trabalhar com Augusto Boal quando ele voltou do exílio. Em uma peça, um musical, que se chamava o Corsário do Rei. Tratava dos piratas franceses que com aprovação do rei de França atacavam e pilhavam o Rio de Janeiro e outros lugares, em busca de suas riquezas. Nestes ataques não hesitavam em estuprar as mulheres e roubar dos pobres e necessitados.
     Os piratas continuam por aí. Atacam, ferem e matam se for necessário. Seu ganho pessoal é indireto. Mantendo a lei, mantém o direito de pilhar usando o nome do rei. Rei Alckmin, rei Kassab neste caso. Na época do Carandiru, rei Maluf e o corsário do rei Ubiratan, Depois alçado a deputado pelo povo paulistano, mais tarde morto a tiro. Aqui se faz, aqui se paga escreveram na parede do prédio dele.
     Intervenções sociais sem nada de social, desastrosas e mal preparadas são rotina por aqui desde esta época. Seus exemplos mais recentes são as da Cracolândia e esta do Pinheirinho. Na primeira um dos policiais resumiu bem o que aconteceu. Um câncer que era localizado se espalhou por toda a cidade. Ninguém acabou nem com o vício nem com os viciados. Mas já apareceram os beneficiários da limpeza quase étnica, as empresas querendo os terrenos para a especulação imobilária. Social cleansing, como gosto de chamar, limpeza social.
     Agora, de novo, se limpa o social em nome de benefícios para aqueles que não fazem parte da sociedade. Os 1% que podem atirar, matar e assinar sentenças compradas sem serem prejudicados. Como diz o comandante Toninho, a polícia nem tem que pensar se está certo ou errado. Precisa cumprir as ordens de forma 'positivista' como ele diz. Depois marcar com pulseirinha, cercar e querer dar passagem de volta, para sei lá onde. Para o Brasil dos 99% talvez. Mais adiante você verá alguns vídeos importantes para você formar sua opinião. A minha é clara. Porrada no Nagi Nahas, na juíza cúmplice da bandidagem e nos governantes do Estado de São Paulo.
    Até porque, se tem algum bandido invasor é o mega especulador. O conflito fundiário no Pinheirinho teve seu ponto de partida com dois mistérios que já duram em torno de 30 anos. O primeiro: as terras, que medem mais de 1 milhão de metros quadrados e atualmente são avaliadas em 180 milhões de reais, pertenciam a um casal de alemães assassinados em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Eles não possuíam herdeiros. O segundo mistério: ninguém ainda soube desvendar como a área passou das mãos do Estado, responsável automaticamente pelas terras após a morte do casal, para a gama de propriedades da Selecta, a empresa do megaespeculador Naji Nahas.

Feito pelos agentes sociais:http://www.youtube.com/watch?v=NBjjtc9BXXY

Entrevista com a polícia e o advogado:http://www.youtube.com/watch?v=gEcF14xvn_Q

E eu sentado no sofá... Esperando o jogo do Flamengo. Por quanto tempo? O tempo dirá.

Haiti
Caetano Veloso
Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui




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