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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Trocando em miúdos

Trocar em miúdos é uma noção absolutamente paradigmática, cartesiana, main stream. É o método de Jack the Ripper... Mas o texto de hoje não é sobre miúdos nem assassinos. Meu desejo hoje é apenas tornar mais claro o texto de ontem, hermético, inacessível.
    Trocando em outras palavras mais simples, paradigmas são maneiras de ver o mundo que determinados grupos de pessoas usam e passam a usar repetidamente, sem questionar. Gosto da metáfora dos óculos, ou das lentes. Quem usa óculos como eu, passa a ver as coisas através daquelas lentes sem lembrar bem que está usando. 
    Outro ponto importante é que há segundo o nosso amigo Kuhn citado ontem, maneiras de ver o mundo que se solidificam como as corretas, apenas para serem derrubadas algum tempo depois. São inquestionáveis em determinados momentos, depois passam a ser questionadas, até serem reconhecidas como absolutamente não representativas da realidade. Ou seja, de verdade nunca tiveram nada, eram apenas um ângulo da verdade. Cosi è si vi pare diria Pirandello. 
    Como diz outro blogueiro, Thiago Henrique dos Santos:


Muitas vezes pode parecer incongruente, mas a ciência muda. Não são raros os momentos em que teorias muito bem estabelecidas, são completamente abandonadas em detrimento de outra. Da mesma forma, outras tantas teorias são fortemente modificadas com o decorrer dos anos, de modo que tornam-se substancialmente diferentes do que eram originalmente.  Essa aparente falta de firmeza nas idéias científicas, contrasta diretamente com a visão popular de que a ciência é um empreendimento de verdades e certezas. Não é.
     O que um paradigma faz é estabelecer algumas questões sobre o mundo físico que são então investigadas na tentativa de se encontrar respostas. No entanto, um paradigma parece nunca conseguir responder todas as questões que propõe. A ciência não é um empreendimento de respostas. Quanto mais sabemos sobre determinado fenômeno, mais questões surgem. Isso não é exatamente um problema, ao menos não inicialmente. Esse processo investigativo é o que Kuhn chamou de “ciência normal”, ou seja, o período aonde determinados paradigmas são aceitos e investigados.
     O que se passa é que o número de questões, ou anomalias, que não podem ser resolvidas com o paradigma estabelecido atinge níveis críticos, é o início do período conhecido por “crise”, aonde novos paradigmas tentam responder de maneira mais eficiente as questões que o paradigma aceito não consegue responder.  O período de crise é marcado pela divisão da comunidade científica entre o paradigma aceito e o paradigma em ascensão. Eventualmente o paradigma em ascensão ganha a preferência e substitui o antigo, é o momento que Kuhn chamou de “revolução científica”.

A questão que abordei levemente no texto de ontem e à qual vou retornar até ela fazer sentido, ao menos para mim, é a do paradigma, ou paradigmas usados para estudar as ciências humanas e sociais. Muitas vezes achamos que tudo que vem em números é melhor do que o que vem em palavras, ou mais sério. Meu orientador de mestrado alertava contra a quantofrenia, esta mania louca por dados, números e estatísticas niveladoras e enquadradoras. Voltaremos a isso em outro texto mais chato.
    Os quadrantes de Burrell e Morgan apresentados ontem levam a importantes reflexões, ao menos para mim. Sendo bem simples e olhando para quem está à minha volta:
1) Há pessoas que acham que o individuo sempre se adapta a forças mais poderosas, a uma realidade objetiva que o enquadra. Pessoas são como ratinhos de laboratório ou cães de Pavlov. Estas pessoas acreditam geralmente em pesquisas feitas com aplicações de questionários, voltadas para entender como os outros pensam e a partir daí fazer com que os outros ajam de uma maneira que se deseje. São os funcionalistas e positivistas
2) Outras pessoas também acreditam na adaptação do ser humano, mas a uma realidade que se transforma constantemente, que não existe de fato e sim é criada e recriada pelos significados atribuídos pelos sujeitos a estas realidades, individuais e grupais. São os interpretativistas e socioconstrucionistas com um pé na fenomenologia e hermenêuticas não críticas.
3) Há uns caras mais radicais que por acharem que a tal da realidade objetiva molda os seres humanos, mas que a natureza destes não é de se adaptar, mas de romper e revolucionar. São os marxistas e estruturalistas radicais.
4) E finalmente há os caras de quem comprei meus óculos. Os humanistas radicais, ou ecosocialistas dos movimentos sociais, os socioconstrucionistas e hermenêuticos críticos. As feministas, os ambientalistas locais, os defensores dos direitos de diversos grupos. Para não ser hipócrita até os nacionalistas de direita teriam seu lugar aqui, mas estas lentes eu dispensei ao comprar meus óculos;
     Claro que a matriz de Burrell e Morgan é uma simplificação. Primeiro porque não há planos geográficos no mundo, eles são na maioria das vezes idealizações teóricas. Sei disso por vivência. Vivi em muitos lugares que no mapa eram planos, com eixos se cruzando como na matriz apresentada ontem. Mas na verdade eram as ladeiras do Jardim Botânico por onde andei tanto com pernas rápidas, as ladeiras do Rodderberg em Bonn, durante 3 anos palco de subidas, descidas e andanças de skate como no JB. Depois na volta da Alemanha as ladeiras da Smith de Vasconcelos e Felinto de Almeida no Cosme Velho e da Saint Roman em Ipanema. Morros e mais morros. Em Porto Alegre poderia ter vivido na cidade inteira, escolhi o alto da Duque de Caxias. Hoje aqui perto da Paulista, no cume de São Paulo. Ladeiras e mais ladeiras, sem latas d´água, mas com esta clareza. O mapa não é o território. E as pernas vão se cansando.



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