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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sobre rupturas e revoluções

Bom, alguma coisa você, que inicia sua leitura aqui, vai ter que ler de escritos anteriores. Só deixo um alerta. Só os covardes e preguiçosos mencionados na aula de Foucault de 5 de janeiro de 1983 lêem apenas 140 caracteres. Quer saber mais sobre a leitura de Foucault que fala dos covardes e preguiçosos e seus talentos para serem governados e ficarem reclamando? Leia depois meu texto de ontem. Comece por aqui, um grande copia e cola da Wiki entremeado por reflexões minhas.
     O objetivo deste pequeno escrito é começar a estabelecer as bases para um paralelo histórico entre alguns momentos da humanidade. Paralelo que começo a traçar, fruto de ideias que começam a se organizar. Busco similaridades e diferenças entre o colapso do império romano, o declínio das cidades-estado de Gênova e Veneza, o fim do império comercial holandês, a revolução e o fim da monarquia francesa, a revolução comunista e o fim do czarismo, o colapso da União Soviética, por exemplo. A ideia é, sem um historicismo profundo, entender o que ocorreu nestes momentos do progresso da humanidade. Uso a palavra progresso baseado no texto de ontem, no qual se convencionou este ponto. Progresso é sinônimo de revolução. 
     Mais um ponto importante para contextualizar a discussão deve ficar aqui registrado. Meu interesse não é histórico, não é estrutural, não é sobre as eras da humanidade, a passagem da antiguidade para a idade média. O ponto que me cativa é o que faziam ou deixavam de fazer as pessoas que causaram esta revolução histórica. Quem eram o 1% no poder, os 98% que começaram a ficar muito insatisfeitos e os 1% que provocaram a mudança. Não apenas os 1% de bárbaros, casados com mulheres romanas ou homens romanos nas províncias e nas capitais do império. Mas também os 1% de romanos que minaram e solaparam e minaram o império. Eles não constam nos livros, mas tenho certeza de que procurando vou encontrá-los. Um viva a Descartes e o método hipotético-dedutivo.
     Vamos à primeira revolução. Aqui, a expressão colapso do império romano refere-se à tomada de Roma pelos hérulos e os fatores que permitiram a uma estrutura com o poder militar e econômico da Roma dos séculos I e II d.C sucumbir. Vale deixar aqui registrado que mesmo não estando em busca de causas históricas, um dos papas no assunto, Edward Gibbon, que escreveu The Decline and Fall of the Roman Empire atribuía a dois fatores a dissolução do poderia romano. A primeira de cunho socioocultural, a substituição da crença nos deuses da Antiguidade pela crença no cristianismo. A segunda, o que é chamado inocentemente de invasões bárbaras. Estas de bárbaras não tinham nada. Na verdade foi a chamada “onda germânica”, que chegou a Portugal e Espanha e depois a Roma. Não deixe que os alemães ouçam você chamando seus ancestrais de bárbaros. A batalha de Teutoburgo é até hoje é cantada nas escolas da Alemanha como um marco da civilização alemã. 
     Apenas para esclarecer, nesta batalha, uma aliança de tribos germânicas chefiada por Armínio (Hermann), da tribo dos queruscos, emboscou e dizimou três legiões romanas, lideradas por Públio Quintílio Varo. Os germânicos eram até então tidos como aliados pelos romanos, comprados com sutilezas e casamentos. Como resultado a batalha estabeleceu o rio Reno como fronteira do império romano pelos séculos seguintes, fato que estabeleceu uma importante distância entre as culturas romana e germânica, assim como o declínio da influência romana em todo o Ocidente. 
      Extrapolando e exagerando os dados anteriores, os cristãos eram os jovens da Praça Tahir e da Liberty Square, enquanto que os germânicos têm muitas caras hoje em dia, vietcongues, iraquianos, iranianos, chineses, egícpios e líbios. Tantos que parecem aliados mas logo não o são.
     No seu auge, o sistema econômico do Império Romano era o mais avançado que já havia existido e que viria a existir até a Revolução Industrial. Seu gradual declínio, durante os séculos III, IV e V d.C, contribuiu enormemente para o colapso do império. Uso aqui a expressão colapso porque não acredito em quedas de instituições e sim em colapsos, em um lento movimento de solapar e minar.
     Este colapso, ou lento declínio, se deu no âmbito da desintegração de uma série de instituições. O edifício político ruiu aos poucos, bem como outras instituições militares, sociais, arrastando o sistema econômico. Há muitos escritos históricos sobre as possíveis causas do colapso, mas como já dito, vamos procurar o que fizeram as pessoas. Fato é que esta desintegração é um arquétipo grupal, um símbolo de medo que obceca quem estiver no poder imperial ou nas suas embaixadas pelo mundo.
     A massiva inflação promovida pelos imperadores durante a crise do terceiro século destruiu a moeda corrente, anulando a prática do pensamento econômico em longo prazo e consequentemente a acumulação de capital. Este aspecto somado ao controle estatal da maioria dos preços teve efeitos desastrosos. Roma deixou de crescer. A falta de condições financeiras e a falta de escravos para uso de mão-de-obra em todo o império geraram tais quedas. Esses fatos tiveram consequências desastrosas pois, com quase todos preços artificialmente baixos, a lucratividade de qualquer empreendimento comercial foi anulada, resultando num colapso completo da produção e do comércio em larga escala e da relativa e complexa divisão do trabalho que existia durante a Pax Romana.
     Aspectos macro são transformados lentamente por pequenas ações e decisões humanas ou por pequenos eventos envolvendo indivíduos. Uma batalha perdida, a morte do último imperador sob o qual o império esteve unificado, um bando de bárbaros atravessando um rio ou ocupando uma praça. A execução de alguém, como Stilicho, o general romano meio vândalo (no sentido de origem, o cara era da tribo dos vândalos), o saque de Roma pelos visigodos. 
     A população das cidades caiu por todo império devido ao colapso comercial e industrial. Os trabalhadores desempregados se fixaram no campo e tentaram produzir eles mesmos os bens que queriam, desmonetizando a economia e acabando com a divisão do trabalho, ocorrendo uma drástica redução da produtividade da economia. 
     Esses fenômenos resultaram na criação do primitivo sistema feudal baseado na auto-suficiência de pequenos territórios economicamente independentes. Com seu sistema econômico destruído, a produção de armas e a manutenção de uma força militar defensiva se tornaram impossíveis de serem financiados. Isto facilitou enormemente as invasões dos bárbaros.
     Outros fatores internos colaboraram para o colapso do Império. O exército descobriu sua importância no sistema e passou a exigir status e melhores remunerações. O império não tinha como corresponder a tais demandas. 
     Alguns destes pontos devem ser guardados na nossa memória. O sistema feudal não foi um retrocesso. Foi um avanço no sentido de autonomia das pessoas, da auto-suficiência dos trabalhadores, uma saída no sentido de Kant da situação do panes et circenses. Por este arrazoado simples de ideias até aqui intui-se quem foram algumas das pessoas e grupos de pessoas que com seus movimentos causaram a queda do império romano. Generais e nobres ambiciosos, querendo uma parcela maior da riqueza do que a pátria mãe gentil poderia dar. Ou seja, uma elite ambiciosa, de uma ambição sem medidas assessorada por financistas que emitiram moeda para arcar com suas dívidas impagáveis.
     Alguém dirá que minhas buscas por paralelismos e revolucionários são forçadas e se apóiam exatamente no medo ancestral. E eu direi que não defendo que nada será como antes amanhã. Mas que todo dia ela, a história, faz tudo sempre igual, nos acorda na hora que não queremos.



Um comentário:

  1. Um autor (E. Stemmelen, “La religion des seigneurs”) apresenta a tese de forte relação entre a fundação do cristianismo e a necessidade de justificar o abandono da liberdade individual, em benefício da submissão ao senhor mais tarde chamado feudal.

    Por aquele prisma, a substituição de crenças não seria uma causa mas uma consequência de um movimento cujas causas se encontram em outros pontos, incluída a incapacidade de manter a logística necessária para sustentar as fronteiras e a homogeneidade do império.

    As famosas invasões bárbaras não teriam sido senão o processo de integração social daqueles povos vizinhos, primeiro conquistados, em seguida assimilados e, finalmente, conquistadores do poder como resultado natural da mobilidade social. Ao que parece, as fronteiras mais distantes não eram protegidas por romanos de Roma, mas por outros povos, podendo se encontrar o mesmo povo dos dois lado da fronteira. Daí, entre outras causas, a impossibilidade de manter demarcações estanques entre Roma e bárbaros.

    Quanto mais leio, mais desenvolvo forte ceticismo quanto ao aspecto revolucionário e popular do início da cristandade. Alguns ateus ou agnósticos consideram a existência de quantidade de manipulações históricas, conscientemente estabelecidas a partir da época do declínio romano e desenvolvidas durante mais de um milênio. Saulo de Tarso, segundo alguns um adepto de uma tendência religiosa extremista, teria sido o verdadeiro fundador do cristianismo, depois de ter navegado entre as diferentes correntes religiosas em voga na época (ando a procura de alguma leitura séria sobre o mitraísmo).

    Para compensar a falta de escravos (captura de guerra) e assegurar o aprovisionamento em bens essenciais, era preciso convencer o romano a aceitar a perda dos privilégios de cidadão rico, libre de inventar suas divagações, e transformá-lo em trabalhador integrado a um sistema estruturado de produção. Aí entraria interesse daquela pequena religião derivada de cultos persas recentemente na moda: o sacrifício e o abandono do bem-estar nesta terra, a submissão infantil ao senhor todo-poderoso, etc., correspondiam ao modelo econômico com mais possibilidades de sucesso.

    Então, o abandono da vida urbana teria sido uma grande perda de autonomia filosófica do cidadão romano, perda forçada pela situação econômica desastrosa do fim do império. Daí uma espécie de refluxo social, quando aquela sociedade extremamente inigualitária se esfacelou o forçou a população “assistida” (como se diz hoje do cidadão francês protegido pela segurança social em vias de desmoronar) a aceitar submeter-se a um sistema de produção capaz de assegurar sua sobrevivência (evitar a fome). Os futuros feudos se formaram como último refúgio para aqueles cidadãos vítimas da inflação e do desmoronamento do sistema econômico.

    O único sobrevivente do sistema anterior foi aquela entidade capaz de alimentar a coesão filosófica do sistema, legitimando o modo de dominação e assegurando, ao mesmo tempo, a preservação das aquisições intelectuais da sociedade anterior: a igreja, fundada já no “estágio terminal” do império. Falo de preservação das aquisições intelectuais porque os chefes e senhores ou eram antigos soldados, ou bárbaros (talvez sejam termos redundantes), quer dizer, analfabetos mas suficientemente inteligentes para perceber o interesse em contar com o capital cultural e tecnológico preservado pela única instituição restante na Europa.

    Tudo isso para contestar sua visão bela e idílica de uma juventude “tahírica” e cristã...

    Fico por aqui, na expectativa de ter contribuído a semear a dúvida criadora.

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